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CON-TEXTOS KANTIANOS.

International Journal of Philosophy N.o 1, Junio 2015, pp. 46-56

ISSN: 2386-7655

doi: 10.5281/zenodo.18504

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International Journal of Philosophy N.o 1, Junio 2015, pp. 46-56

ISSN: 2386-7655

doi: 10.5281/zenodo.18504


Sobre o aperfeiçoamento moral como destino da espécie humana


On Moral Perfection as Destiny of the Human Species


CINARA NAHRA


UFRN, Brasil


Resumo


O objetivo deste artigo é discutir a idéia de aprimoramento moral em Kant. Mostramos que o aprimoramento moral se relaciona a idéia de agir por dever e que enquanto indivíduos tudo o que podemos fazer é agir moralmente e nos aprimorar moralmente, contribuindo assim para o aprimoramento moral da espécie. Este aprimoramento requer não apenas que trabalhemos pelo nosso próprio aperfeiçoamento, mas também, que trabalhemos pela felicidade dos outros. Porém por mais que trabalhemos pela felicidade dos outros, a realização do bem perfeito no mundo (consummatum), ou seja, a felicidade para os virtuosos, não depende inteiramente de nós e de nossos esforços individuais e como espécie. O destino humano então é o de nos aperfeiçoamos moralmente enquanto indivíduos, contribuindo desta forma para a mudança do caráter da espécie, nos tornando uma espécie não apenas capaz de moralidade, mas efetivamente moral, realizando o soberano bem (supremum) ao mesmo tempo que esperamos que todos estes seres morais sejam felizes, ou seja, que se efetive o soberano bem perfeito (consummatum).


Palavras chave


Kant; aperfeiçoamento moral; soberano bem (supremum); soberano bem (consummatum)


Abstract



Professora Doutora do Departamento de Filosofia da UFRN (Brasil). E-mail de contato:

[email protected]


[Recibido: 4 de abril de 2015/ 46

Aceptado: 25 de Mayo de 2015]

Sobre o aperfeiçoamento moral como destino da espécie humana


The main of this article is to discuss the idea of moral enhancement in Kant. We will show that moral enhancement is related do idea of acting from duty and as individuals all that we can do is to act morally and enhance ourselves morally, contributing for the moral enhancement of the human species. To achieve the moral enhancement of the human species, however, it is necessary not only to work for our enhancement, but also to work for the happiness of others. But even if we work for other´s happiness, the accomplishment of the highest good (consummatum), I mean, the happiness for the virtuous, does not depend entirely on us and our efforts as individuals or as species. Human destiny ,then, is to morally improve ourselves as individuals, contributing this way to change the character of the species, becoming not only a species capable of morality but de facto moral, achieving the highest good (supremum), while hoping for the happiness of the virtuous, i.e., hoping for the accomplishment of the highest good (consummatum).


Keywords


Kant; Moral Enhancement; Highest Good (supremum); Highest Good (consummatum)


  1. Introdução


    Em vários momentos de sua obra Kant discute a espécie humana, sua destinação e seu aperfeiçoamento do ponto de vista moral. Na Antropologia (AA 07 322) ele sugere que uma boa caracterização do ser humano no sistema da natureza viva seria a de que «o ser humano tem um caráter que ele mesmo cria para si enquanto é capaz de se aperfeiçoar segundo os fins que ele mesmo assume», e a seguir sugere que «o homem se faz um animal racional na medida em que realiza o aperfeiçoamento mediante cultura progressiva, ainda que com muito sacrifício da alegria de viver».

    Na Crítica do Juízo (AA 05 392) Kant nos esclarece o que ele entende por cultura. Afirma que cultura é a produção da aptidão de um ser racional para fins desejados em geral. É por isso,diz ele, que só a cultura pode ser o fim último ao qual se atribui à natureza a respeito do ser humano, e não,salienta Kant, a sua própria felicidade na terra.Aqui nos chama a atenção Kant sobre a importância da cultura da disciplina, que é negativa e consiste na libertação da vontade em relação ao despotismo dos desejos.

    Em Sobre a Pedagogia (AA 09 441) Kant clarifica o tema da disciplina. Logo após afirmar que «a espécie humana é obrigada a extrair de si mesma, pouco a pouco, com suas próprias forças, todas as qualidades naturais que pertencem à humanidade, sendo que uma geração educa a outra», Kant reafirma que a disciplina é que impede o homem de desviar-


    CON-TEXTOS KANTIANOS International Journal of Philosophy N.º 1, Junio 2015, 46-56, ISSN: 2386-7655

    doi: 10.5281/zenodo.18504

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    se de seu destino, de desviar-se da humanidade, através de suas inclinações animais. Adiante (AA 09 443) ele nos diz que o homem só se torna um verdadeiro homem pela educação. Kant (AA 09 444) chega a afirmar que o grande segredo da perfeição da natureza humana se esconde no próprio problema da educação, e aposta no aperfeiçoamento da espécie humana a través das gerações, sugerindo que

    «talvez a educação se torne sempre melhor e cada uma das gerações futuras dê um passo a mais em direção ao aperfeiçoamento da humanidade”. Entusiasmado nos diz Kant que “é entusiasmante pensar que a natureza humana será sempre melhor desenvolvida e aprimorada pela educação, e que isto abre a perspectiva para uma futura felicidade da espécie humana».


    Observe-se que aqui Kant resgata a felicidade como fazendo parte daquilo a que nós humanos estamos destinados. Enquanto a felicidade humana não é o fim último humano, como Kant salienta em vários momentos de sua obra, a felicidade como um fim subordinado à moralidade se mostra possível, exatamente como Kant já previra na noção de soberano bem (consummatum), ou seja, o soberano bem perfeito.Este desenvolvimento, porém, rumo a nossa destinação, só pode acontecer através dos tempos, através das sucessivas gerações que aprendem e por sua vez transmitem às próximas gerações aquilo que acumularam. Para Kant em Sobre a Pedagogia (AA 09 446):

    «Cada geração, de posse dos conhecimentos das gerações precedentes, está sempre melhor aparelhada para exercer uma educação que desenvolva todas as disposições naturais na justa proporção e de conformidade coma finalidade daquelas, e assim, guie toda a espécie humana a seu destino».


    Qual é, entretanto o destino maior da espécie humana, que se realiza através das sucessivas gerações, que aprendem e deixam seu legado para as próximas e como ele se realiza no homem.1


  2. A espécie humana e seu destino



    1

    Tomamos como base para a elaboração deste artigo a Antropologia de um ponto de vista pragmático (Anth

    AA 07) a Crítica da Faculdade do Juízo (KU AA 05) e Sobre a Pedagogia (Päd AA 09). Não trabalhamos diretamente com a literatura secundária aqui, mas é importante mencionar, para que se entenda a discussão aqui desenvolvida sobre o aperfeiçoamento moral em Kant, nas suas diversas perspectivas, os artigos de autores como Alex Cohen, Chris Suprenant, Felicitas Munzer, Gerard Lebrun, Johannes Giesinger, Pauline Kleingeld, Paul Formosa, cujas obras mais relevantes para esta discussão estão citadas na bibliografia.


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    Diz-nos Kant na Antropologia (AA 07 324) que diferentemente de todos os outros animais, aonde cada indivíduo alcança sua plena destinação, entre nós humanos apenas a espécie o alcança, de modo que o avanço do gênero humano até sua destinação se dá mediante o progresso em uma série imensa de gerações. Mas porque Kant seria tão cético em relação a possibilidade de que este aprimoramento completo seja atingido individualmente e não apenas pela espécie?

    Uma das razões é justamente o pouco tempo de vida que têm os seres humanos individualmente. Afirma Kant explicitamente (AA07 326):

    «O impulso à ciência como uma cultura que enobrece a humanidade, não tem, no todo da espécie, proporção alguma com a duração da vida.Quando o douto avançou na cultura até o ponto de ampliar por si mesma o campo dela, é ceifado pela morte, seu lugar é ocupado por um discípulo que ainda está aprendendo o bê-á-bá, discípulo que pouco antes do fim da vida e depois de ter dado um passo adiante, cede por sua vez o lugar a um outro. Que massa de conhecimentos, que invenção de novos métodos não teria legado um Arquimedes, um Newton ou um Lavoisier com seus esforços e talentos, se tivessem sido favorecidos pela natureza com uma idade que perdurasse um século sem diminuição da força vital?».

    Uma afirmação semelhante aparece na Ideia de uma História Universal de um ponto de vista cosmopolita (AA 08 19) quando na segunda proposição afirma Kant que no homem (como única criatura racional sobre a terra) as disposições naturais que visam o uso da sua razão devem desenvolver-se integralmente só na espécie e não no indivíduo. A razão disto, afirma Kant na sequência, é que a razão precisa de exercício e aprendizagem para avançar de um estágio de conhecimento para outro, e assim sendo cada homem teria de viver um tempo incomensuravelmente longo para aprender como deveria usar com perfeição todas suas disposições naturais, e se a natureza estabeleceu um breve espaço de tempo para nossas vidas é necessário uma série incontável de gerações, das quais uma transmite as outras o seu conhecimento, para que seu germe, inscrito na nossa espécie, alcance o estágio de desenvolvimento adequado a sua intenção. Aqui Kant reconhece que é enigmático que tantas gerações trabalhem para que apenas as gerações futuras desenvolvam totalmente suas capacidades, especialmente a da razão, mas isso é necessário para que nossas disposições naturais se desenvolvam a um nível de perfeição, ou seja, é necessário que assim seja para que a razão se desenvolva plenamente. Diz-nos Kant na terceira proposição da Ideia (AA 08 20):


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    Cinara Nahra

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    «Causa sempre surpresa que as velhas gerações se empenhem aparentemente nas suas ocupações trabalhosas só em vista das futuras, para lhes preparar um estágio a partir do qual possa m elevar ainda mais o edifício que a natureza tem como intento; e que só as últimas gerações terão a sorte de habitar na mansão em que uma longa série dos seus antepassados (talvez, decerto, sem intenção sua) trabalhou, sem no entanto poderem partilhar da felicidade que prepararam. Embora isto seja muito enigmático, é ao mesmo tempo necessário, se alguma vez se conjecturar que uma espécie animal deve ter razão e, como classe de seres racionais, sujeitos à morte no seu conjunto, chegará todavia à perfeição do desenvolvimento das suas disposições».


    Assim é que nossa finitude torna praticamente impossível desenvolver as nossas disposições individualmente ao nível da perfeição. Mas a nossa finitude individual, que não permite um desenvolvimento da nossa racionalidade a nível da perfeição, não é empecilho para que este desenvolvimento se realize ao nível da espécie,pois esta se perpetua. Assim, por mais que nos aperfeiçoemos cognitiva e moralmente individualmente (e Kant exige que trabalhemos para este aprimoramento) é só a espécie, no seu desenvolvimento ao longo das gerações, que atingirá a perfeição, especialmente a perfeição moral. Mas o que seria a perfeição moral?


  3. Da Perfeição e do Aperfeiçoamento Moral


    Entre os seres racionais terráqueos, para Kant única e exclusivamente a espécie humana, o fim colocado pela própria natureza é atingir o bem e propagar o bem. Um dos aspectos do aprimoramento moral, no desenvolvimento do bem através dos tempos, é justamente o aprendizado do rechaço do egoísmo. Diz-nos Kant (AA07325) que o ser humano está destinado por sua razão a se cultivar, civilizar e moralizar por meio das artes e das ciências e destinado a se tornar ativamente digno da humanidade na luta com os obstáculos dados por sua natureza rude. Com o aumento da cultura (que como vimos, pode ser o fim último ao qual se atribui à natureza a respeito do ser humano e que envolve educação, disciplina e instrução) também os homens percebem cada vez mais os males que causam uns aos outros pelo egoísmo (AA 07 329).É o egoísmo prático, ou moral, aquele

    que Kant parece estar se insurgindo aqui2. Egoísta moral, nos diz Kant (AA07130) é aquele



    2

    Na Antropologia (AA 07 129) Kant classifica três tipos de egoísmo. O egoísmo lógico, o egoísmo estético e

    o egoísta moral. O egoísta lógico acha desnecessário examinar seu juízo também pelo dos outros, como se desnecessário fosse o criterium veritatis externum. O egoísta estético é aquele ao qual o próprio gosto basta, se isolando em seu juízo e aplaudindo a si mesmo e o egoísta moral é o eudaimonista, que coloca sua própria


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    que reduz todos os fins a si mesmo, que não vê utilidade senão naquilo que lhe serve e que como eudemonista coloca na própria felicidade, e não na representação do dever, o fundamento de determinação supremo de sua vontade.

    Assim é que o aprimoramento moral se relaciona necessariamente como não poderia deixar de ser, a ideia de agir por dever, tomando como princípio de nossas ações a lei moral. Diz-nos Kant na Metafísica dos Costumes (TL AA 06 387)quando escreve sobre nossa própria perfeição como um fim que é também um dever, que o cultivo da moralidade em nós mesmos é a maior perfeição moral do homem, no sentido de agirmos “por dever”, e não estarmos apenas em conformidade com a lei moral, já que nós seres humanos temos de cultivar nossa vontade até a mais pura disposição virtuosa, na qual obedecemos a lei “pelo dever”. Afirma também Kant na Crítica do Juízo(KU AA 05 422) que se deve haver um fim terminal que a razão tem de indicar este não pode ser outro senão o homem(qualquer ser racional do mundo) sob leis morais.Segue Kant(KU AA 05 423) afirmando que as leis morais têm como característica peculiar o fato de prescreverem incondicionalmente à razão algo como um fim. Por isso a existência de uma tal razão, que pode ser a lei suprema, a existência de seres racionais sob leis morais, pode por isso ser pensada como fim terminal da existência do mundo.

    Observe-se que a destinação da razão, escreve Kant na GMS (AA 04 396) é a de produzir uma boa vontade. Diz-nos Kant que pode ser que esta vontade não seja o único bem nem o bem completo, mas ela, contudo necessariamente o bem supremo (das hochste Gut), condição da qual depende todo outro bem, e mesmo todo merecimento à felicidade. Kant sugere aqui na FMC que a boa vontade (guter Wille) é o bem supremo incondicional (supremum). Uma vontade boa porém, nada mais é do que uma vontade que age moralmente, ou seja, que age determinada apenas por aquilo que a razão pura prática determina,o que significa, em outras palavras, que um ser como é o homem, age de boa vontade quando ele age racionalmente, ou seja,quando age movido pela lei moral. A efetivação, então, do bem supremo incondicional, que é um fim terminal, para nós, seres racionais do planeta terra, nada mais é do que o agir moral. Se todos os homens agissem de boa vontade, ou seja, agissem moralmente sempre, teríamos alcançado o bem supremo


    felicidade acima do dever. Ao egoísmo, diz Kant, se opõem o pluralismo, isto é o modo de pensar que consiste em não se considerar nem em proceder como se o mundo inteiro estivesse encerrado no próprio eu, mas como um simples cidadão do mundo.


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    incondicionado, aquele fim que não é condicionado por nenhum outro, embora não seja ainda o fim perfeito, porque o fim perfeito pressupõe que a moralidade seja acompanhada pela felicidade.

    Porém, na GMS (AA 04 394) Kant levanta a possibilidade de que talvez não existam ações morais, ações realizadas pela mera representação do dever. Assim sendo, se existe a possibilidade de que nenhuma ação no mundo seja efetivamente moral, não há como Kant afirmar que o soberano bem incondicional (supremum) necessariamente se realizará. O que há, segundo Kant, é a necessidade prática de trabalhar para a realização do soberano bem (KpV, AA 05 125). Uma necessidade da razão pura prática que é fundada sobre um dever, aquele de tomar alguma coisa (o soberano bem) como objeto de minha vontade para trabalhar por todas as minhas forças para realizá-lo (KpV AA 05 126). Este dever se funda sobre a lei moral. Esta afirmação da Crítica da Razão Prática parece estar em consonância com o que diz Kant na KU (AA 05 423) que a lei moral nos determina a priori o bem supremo, como fim terminal. Esta determinação a priori do bem supremo, entretanto, no que concerne aos indivíduos, não pode ser nada mais do que a determinação da obrigação que temos de trabalhar pela sua existência, e não a obrigação de que o bem supremo se realize, já que esta efetivação depende do conjunto dos indivíduos e da espécie como um todo, ou seja efetivar o bem incondicionado significa que em algum momento da história todos nós estaríamos agindo moralmente, ou seja , teríamos mudado o caráter da espécie, teríamos nos aprimorado a ponto de termos transformados a nós humanos, de animais dotados da faculdade da razão (animal rationabile) em animais racionais (animal rationale) (AA 07 322).

    Se um dia nos tornarmos animais racionais agiremos todos moralmente, tomando como máxima de nossa ação o imperativo categórico. Neste momento poderemos dizer que a espécie terá mudado o seu caráter e teremos então, como espécie,nos aprimorado moralmente, realizando o soberano bem incondicionado. A chegada a este ponto, porém depende fundamentalmente de um fator, qual seja, o aperfeiçoamento de nós próprios, desenvolvendo nossas disposições morais e realizando, através de nossa capacidade de nos colocar fins, o fim incondicionado que é a efetivação do bem e da moralidade no mundo. Afirma Kant (AA 09 446):



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    Sobre o aperfeiçoamento moral como destino da espécie humana


    «O homem deve antes de tudo desenvolver as suas disposições para o bem; a Providência não as colocou nele prontas; são simples disposições sem a marca distintiva da moral. Tornar-se melhor, educar-se, e se formos maus, produzir em si a moralidade: eis o dever do homem».


    Cumpriríamos assim parte de nosso destino, como espécie, de cada vez mais agir tomando como máxima da ação princípios racionais e cada vez menos tomando como princípio da ação as determinações sensíveis. Teríamos nos aprimorado moralmente pelo desenvolvimento livre e autônomo das nossas disposições a través do permanente exercício da razão através dos tempos e na transmissão de conhecimento de uma geração para outra através da educação.


  4. O Soberano bem perfeito


Como já observamos a noção de felicidade, que não pode servir como princípio determinante de nossas ações, nunca foi entretanto abandonada por Kant, tendo um papel importante em todo seu sistema prático. Isso fica claro em vários momentos de sua obra especialmente em dois, na doutrina das virtudes, quando Kant estabelece dois fins que são ao mesmo tempo deveres, procurar a perfeição própria e a felicidade dos outros, e quando ele estabelece o conceito de soberano bem na Crítica da Razão Prática. O soberano bem em Kant, pode ter dois sentidos, significando supremo (supremum) ou perfeito

(consummatum), que chamei aqui de bem supremo incondicionado e bem supremo perfeito3 (KpV AA 05 110) Enquanto podemos atingir o soberano bem incondicionado (supremum) nos tornando como espécie, morais, através da nossa liberdade, agindo virtuosamente ou seja, moralmente (por dever), o soberano bem perfeito (consummatum)

segundo Kant, requer não apenas que a espécie humana venha a se tornar efetivamente moral, mas requer também, que a moralidade seja acompanhada pela felicidade, ou seja, que aqueles que agem moralmente, e que portanto merecem a felicidade , efetivamente o sejam. Porém, para Kant (KU AA 05 424) não podemos pensar estas duas condições do fim terminal que nos é determinado pela lei moral como ligadas na natureza, e por isso



3

Adverte-nos Kant que o conceito de soberano bem contém em si uma ambiguidade que, se não prestarmos

atenção, pode causar inúmeras controvérsias desnecessárias. O soberano bem pode significar tanto supremo (supremum) quanto completo (consummatum). No primeiro sentido ele é tomado como sendo uma condição que é ela própria incondicionada, isto é, não subordinada a nenhuma outra condição (originarium), e no segundo como um todo que não é parte de um todo do mesmo tipo (perfectissimum).


CON-TEXTOS KANTIANOS International Journal of Philosophy N.º 1, Junio 2015, 46-56, ISSN: 2386-7655

doi: 10.5281/zenodo.18504

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Cinara Nahra

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temos de admitir um autor do mundo para que se realize o soberano bem perfeito

(consummatum), conforme a moralidade exige.

Aqui a espécie humana se depara com um limite. Ainda que um dia venhamos como espécie atingir um estado de moralidade, ainda que todos nós venhamos a agir sempre moralmente, ainda assim não poderíamos garantir que seremos felizes, porque enquanto que ser moral é ser livre, bastando para ser moral que sigamos o que determina a razão pura, ou seja, que escolhamos seguir as determinações da razão pura, a exigência de que a felicidade acompanhe a moralidade não depende inteiramente de nossas escolhas, e sim da organização cósmica do universo, incluindo nisto um autor do mundo, que deve permitir a harmonia das ordens da natureza e da razão. A esperança de que assim seja, entretanto, não exime a humanidade da obrigação de fazer tudo que estiver a seu alcance para que este fim se realize, e muito menos da obrigação de seguir sempre a lei moral.

Assim, enquanto indivíduos tudo o que podemos fazer é agir moralmente e nos aprimorar moralmente, contribuindo assim para o aprimoramento moral da espécie. Este aprimoramento requer não apenas que trabalhemos pelo nosso próprio aperfeiçoamento, mas também, que trabalhemos pela felicidade dos outros. No que se refere à felicidade Kant já nos adverte de que a perseguimos naturalmente, mas isto não basta. Ao estabelecer a promoção da felicidade dos outros como sendo um fim que é ao mesmo tempo um dever, Kant nos lembra de que temos a obrigação de fazer a nossa parte para que esta finalidade se efetive, e é por isso que temos o dever indireto de ajudar os outros, ou seja, não temos o dever de ajudar a todos sempre e na mesma proporção mas temos o dever de ser benevolentes e com isso contribuímos para a promoção dessa felicidade.

Assim é que se cada um de nós se aprimorar pessoalmente poderemos atingir o bem supremo incondicionado, a moralidade no mundo. Ao obedecermos ao dever de trabalhar pela felicidade dos outros, sendo benevolentes mas respeitando a liberdade alheia,contribuímos para a consecução também do soberano bem em seu segundo sentido, enquanto perfeição, o soberano bem perfeito, ou total (consummatum). Aqui, no entanto, esbarramos nos nossos limites. Por mais trabalhemos pela felicidade dos outros, a realização do bem perfeito no mundo, ou seja, a felicidade para os virtuosos, não depende inteiramente de nós e de nossos esforços individuais e como espécie. Podemos agir moralmente, podemos ajudar os outros a realizar seus fins compatíveis com a moralidade, e assim serem felizes, mas não podemos nunca garantir que aqueles que merecem a



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Sobre o aperfeiçoamento moral como destino da espécie humana


felicidade a obterão, porque por mais que tenhamos modificado o caráter da espécie humana nos tornando efetivamente morais e concretizado o soberano bem incondicionado, a ligação da moralidade com o segundo termo do soberano bem perfeito, ou seja, com a felicidade, e não apenas com o merecimento da felicidade, não está garantida na natureza, e não depende apenas de nossos esforços.

Eis aí então o nosso destino: nos aperfeiçoar moralmente enquanto indivíduos e contribuir desta forma para a mudança do caráter da espécie, nos tornando uma espécie não apenas capaz de moralidade, mas efetivamente moral, realizando o soberano bem (supremum) ao mesmo tempo que esperamos que todos estes seres morais sejam felizes, ou seja, que se efetive o soberano bem perfeito (consummatum). É isso o que nós, os homo sapiens, devemos fazer, e é isso o que nos é permitido esperar.


Referências bibliográficas:


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